No final, permanece.
- mardeafectos
- há 5 dias
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Alguém vai te dizer que cuidar de um gato FIV e FeLV é a mesma coisa que cuidar de um gato sem diagnóstico. E essa é a maior mentira que vão te contar.
Cuidar de um animal com doença crônica nunca começa no cuidado: começa no choque. No momento em que o diagnóstico aparece e, com ele, a consciência de que você vai precisar lidar com a morte — não como uma possibilidade distante, mas como uma presença constante. Talvez por isso esses animais quase nunca sejam adotados. Eles são deixados para trás quando as pessoas percebem que amar também pode significar acompanhar o fim.
Eu sei que isso pode parecer um desserviço dizer isso em voz alta. Mas, honestamente, não acredito que o retrato de uma pessoa que cuida, sozinha, de sete gatos com as mais diversas enfermidades crônicas seja capaz de alterar um sistema maior, estrutural, que rejeita corpos adoecidos. Esses animais seguem sendo invisibilizados, abandonados e descartados justamente porque lembram aquilo que ninguém quer ver.
E, a partir daí, o cérebro de quem cuida nunca mais descansa.
O cuidado cotidiano se instala como um estado permanente de alerta. Você observa tudo: se comeu, se não comeu, se mudou o comportamento, se dormiu diferente. Você passa a buscar a melhor ração, o melhor suplemento, a melhor possibilidade. Fisioterapia, acupuntura, moxa, reiki… Sem perceber, você vira uma crítica gastronômica de ração, uma médica chinesa e uma nutricionista improvisada.
Com o tempo, o vocabulário muda. Você aprende palavras que nunca quis aprender: reticulócitos, hematócritos, plaquetas, leucócitos. Aprende a interpretar exames, a falar de relação proteína/creatinina urinária, de cistocentese, de ultrassonografias repetidas. De tanto ver exames, você começa a reconhecer o maldito cálculo renal que te tira o sono.
Em algum momento, você passa a ouvir a palavra neoplasia mais vezes do que gostaria. E então vem o ritual silencioso: rezar, ajoelhar, negociar todos os dias para que, se houver um tumor, ele não seja maligno. A doença deixa de ser um evento isolado e passa a ser uma parte possível da existência.
Com o tempo, você entende que não está ali para encontrar cura. Não há promessa de cura. O que existe é a possibilidade de vida. E isso muda tudo. A morte deixa de ser um obstáculo a ser superado e passa a ser algo que se abraça diariamente. Porque a pergunta já não é “como curar?”, mas “como viver?”.
Viver, nesse contexto, ganha outra medida. Quando ele se alimenta, quando brinca, quando dorme tranquilo, aquilo é o puro suco da vida. E você sabe — dolorosamente — que não sabe quanto tempo isso vai durar.
O cérebro, em algum ponto, se acostuma a esse nível de estresse. Você aprende a respirar. E, quase sempre, é justamente quando você relaxa que a crise retorna. Então voltam o choro, a oração, o encontro íntimo com Deus, as negociações silenciosas. Volta o pedido por conforto — não por cura —, mas para que ele possa viver bem até o último dia.
Você passa tanto tempo no veterinário que, inevitavelmente, cria-se um vínculo estranho e profundo. Você aprende a ler o seu veterinário: percebe quando ele fala para te acalmar e quando fala para se acalmar. Porque chega um momento em que ele também precisa encarar a própria limitação, entender que a medicina não foi feita apenas para a cura, mas também para o conforto — e que oferecer conforto é, muitas vezes, o gesto mais humano possível.
Ele te observa e entende que você e o animal se tornaram quase um só. E passa a se preocupar não apenas com o paciente, mas com você — com o que vai acontecer quando esse corpo faltar.
Ao mesmo tempo, ele se envolve com o animal de um modo profundo, quase íntimo. Há um momento em que o cuidado deixa de ser apenas técnico e passa a ser relacional. Ele sente que aquele animal também é, de alguma forma, dele.
Porque cuidar de alguém com uma doença crônica exige abrir mão da ideia de animal como propriedade. Esse animal não é “seu”. Ele deixa de pertencer a uma única pessoa e passa a existir como parte de uma constelação de vínculos — um grupo de pessoas que se importa infinitamente com ele, cada uma à sua maneira, sustentando sua existência enquanto é possível.
Diante disso, o veterinário também se vê atravessado pela mesma impotência que atravessa todos nós diante da morte: a de compreender que cuidar não é possuir, e que amar não dá direito à permanência.
E todo mundo colapsa, menos o animal.
O gato não carrega os dramas humanos. Ele não negocia futuros, não sofre por antecipação. Ele está ocupado demais vivendo — e ele não conhece outra vida além dessa. E sua única responsabilidade nesta vida é querer viver.
E você aprende a sustentar isso.
Cuidar de um gato FeLV, FIV ou com qualquer condição crônica é procurar possibilidades, tratamentos e manejos. Não para vencer a morte, mas para garantir qualidade de vida. É entender que a morte não precisa ser dolorosa, desesperadora ou trágica — ela pode ser parte de uma trajetória que dá sentido pleno à relação.
Isso não elimina o medo. Nem dispensa terapia, psiquiatria ou apoio. Porque você adoece também. A gente da cidade não foi feita para lidar com a finitude. Você se frustra. Você sabe que é profundamente injusto que um animal que poderia viver vinte e cinco anos viva três, dez, ou qualquer tempo menor do que você gostaria.
O tempo, para quem cuida, é sempre mais curto e mais intenso. As relações não seguem a cronologia comum. Não é um resfriado que passa. Tudo é potência. Tudo é risco. Uma simples gripe pode se transformar em algo inimaginável.
Cuidar de animais crônicos é viver nessa dança delicada: saber até onde agir, quando agir e quando não agir. É habitar a complexidade de aceitar que amar alguém implica reconhecer sua finitude, e que insistir na permanência a qualquer custo pode se tornar uma forma de violência — porque prolongar a vida sem garantir o viver é negar o próprio sentido do cuidado. Então, a vida até pode ser como a de qualquer outro gato preocupado em viver. Mas, o cuidado não. O viver permanece, porém, o cuidado transforma.
E se você me perguntar se, apesar de tudo isso, vale a pena? Sem dúvida, sim. Porque cuidar desses animais é entender que a vida não é egóica. Não é sobre o que você quer, mas sobre o que podemos ser e viver, juntos.
A tristeza, o medo e o desespero são tão marcas da vida quanto a alegria, o amor, a generosidade e os momentos bons. Todos eles existem porque amamos.
E eu sou romântica demais para dizer não ao amor.






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