A vida não se argumenta
- mardeafectos
- 11 de jan.
- 3 min de leitura
“Nossa, como você consegue ser LT? Eu me apegaria demais e não conseguiria doar!”
Essa é uma das frases mais comuns que escuto. E posso afirmar: a parte de encontrar uma família e entregar esse animal é uma das mais fáceis e também uma das mais satisfatórias.
O mais difícil, sem dúvidas, é precisar provar e convencer o outro de que aquele ser é digno de amor. Isso é o que mais me incomoda. Encontrar alguém, cuidar, vê-lo se transformar enquanto você também se transforma é maravilhoso.
Óbvio que sinto saudade no momento da despedida, óbvio que choro, que fica um gosto agridoce. E isso acontece porque eu me apego. Se não fosse para me apegar, eu nem me disporia a fazer isso.
Mas ter de convencer alguém de que um ser é digno de amor e de cuidados básicos não faz parte do meu trabalho. Na realidade, isso é extremamente contraintuitivo.
Margaret Mead dizia que o que nos caracteriza enquanto espécie não é a força, a inteligência ou a capacidade de dominação, mas a nossa habilidade de cuidar uns dos outros. Ela chegou a essa conclusão ao estudar um fêmur humano encontrado com marcas de cura. Para a lógica da natureza — ainda mais em sociedades antigas — um fêmur quebrado era praticamente uma sentença de morte. Quem não conseguia andar não conseguia fugir, caçar ou sobreviver sozinho.
O fato de aquele osso ter cicatrizado indica que alguém foi cuidado. Que alguém foi alimentado, protegido, carregado. Que uma comunidade se organizou em torno da fragilidade de um corpo. Esse fêmur curado é um vestígio material de empatia, cooperação e responsabilidade coletiva. Ele mostra que a sobrevivência humana sempre esteve ligada à capacidade de sustentar o outro quando ele não consegue se sustentar sozinho.
Donna Haraway amplia essa compreensão ao nos lembrar que nunca fomos indivíduos isolados. Somos seres em relação, feitos de encontros, dependências e coabitações. Viver, para ela, é fazer parentes: criar vínculos responsáveis entre espécies, humanos e não humanos, reconhecendo que existimos porque outros nos sustentam — e porque sustentamos outros. O cuidado, nesse sentido, não é caridade, nem escolha moral individual; é condição de existência compartilhada.
A nossa sociedade, no entanto, individualizou o cuidado de tal forma que ele deixou de ser um compromisso coletivo e passou a funcionar como um juízo moral. O cuidado foi deslocado para a esfera do mérito, do comportamento adequado, da performance de ser desejável. Já não se cuida porque alguém existe, mas porque alguém convence, porque corresponde, porque se encaixa.
Nesse processo, a vulnerabilidade deixou de ser reconhecida como parte constitutiva da vida e passou a ser tratada como falha — algo que precisa ser explicado, justificado, negociado. Como se a fragilidade fosse um defeito pessoal, e não uma condição comum a todos os corpos vivos.
Amar, então, também se tornou condicional. Um gesto que exige prova, garantia, retorno. O amor deixa de ser vínculo e passa a ser contrato.
Talvez por isso os animais que vêm para minha casa demorem tanto para serem adotados. Não porque não sejam amáveis, mas porque eu não tenho paciência para traduzir o óbvio, nem para transformar a vida em argumento. Eu cuido. Eles me cuidam. E isso deveria bastar.
E basta.
Você não tem que provar a ninguém que é digno de amor.
E este texto não é apenas sobre os animais.






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