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  • Foto do escritorMar de Afetos

O paralelo entre as Erínias e Desalma.

Atualizado: 13 de abr. de 2021

*Esse texto contém spoilers.


“Até aonde você iria para vingar a morte de uma filha?” disse Anele, interpretada por Isabel Teixera.


Desalma é uma série de suspense-terror passada em Brígida, uma cidadezinha fictícia moldada à cultura ucraniana no sul do Brasil. Em 1988, durante a celebração de Ivana Kupala ocorre o desaparecimento e a morte de Halyna (Anna Melo), filha da bruxa da cidade, Haia (Cássia Kis). Trinta anos após o evento, a cidade resolve voltar a celebrar a festa, porém, situações estranhas começam a acontecer.


Registradas na Teogonia de Hesíodo, as Erínias surgiram do sangue ferido de Urano derramado sobre a Terra, com a promessa de que o ato de seu filho Kronos, que havia lhe castrado, seria vingado, prometendo o destronamento do titã.


Conhecidas como as deusas das vinganças familiares, as Erínias estão presentes em diversos poemas gregos, como no mito de Ifigênia em que Agamêmnon, seu pai, a oferece em sacrifício para a deusa Ártemis. Clitemnestra, mãe da jovem, no momento em que descobre o feito do marido é encarnada por uma terrível dor e invocada pelas Erínias, jurando vingança de sua filha Ifigênia e assassinando brutalmente seu marido dez anos depois, ao voltar da guerra.


Durante esses dez anos, Clitemnestra foi tão consumida pelos poderes das deusas e pelo desejo de retaliação que abandonou seu filho mais novo. Anos após a morte do pai, já adulto e repleto de rancor em virtude da rejeição materna e pela morte do pai, o homem assassina Clitemnestra. Ou seja, as Erínias são entidades que afetam gerações. No modelo grego tradicional e nas religiões, é um rancor e uma dor causada pelo crime cometido a um familiar que perpassa através do tempo, transformando-se em maldição.


No nosso dia-a-dia, podemos ver as Erínias atuando quando somos consumidos pela dor e vivemos através das feridas. É uma dor que transforma, que cria escudo, defesas, um estresse tão gigantesco que o indivíduo não consegue mais viver a vida sem pensar na dor. Na série, enxergamos o poder das Erínias através da mudança de personalidade de Haia. Enquanto a filha estava viva, mesmo com a morte do marido, a mulher usava roupas de tons escuros, cabelo preto, estava disposta ajudar as pessoas da comunidade, como quando auxiliou a criança enferma que não tinha como pagar tratamento médico. Era carinhosa com a filha, beijando-a na testa e tentando protegê-la.


Após o assassinato da filha, Haia deixou seu cabelo embranquecer, não sorria, resmungava e estava recorrentemente com uma espingarda na mão, usava apenas roupas pretas e era consumida pela dor e pelo ódio à família Skravonski, acusada pela morte de Halyna e de seu marido.


Haia em 1988 e Haia em 2020

A bruxa passou trinta anos de sua vida esperando pelo momento perfeito para vingar a morte Halyna. Não há limite de tempo, nem de esforço para vingar a perda de uma filha. A vingança não acontece de forma imediatista quando orquestradas pelas Erínias. O feito deve ser pensado, digerido, preparado. A cada minuto, hora, dia, ano que se passa, a dor aumenta e o poder cresce. A vingança é brutal, bárbara, instintiva. Como Clitemnestra que mata Agamêmnon com machadadas no peito enquanto relaxava na banheira preparada por ela.


No caso da série, existia o desejo de colocar de sua filha em um corpo humano. Este é um feitiço que precisa de tempo, dedicação e precisão. Para isso, muitas pessoas tiveram que sofrer, principalmente àqueles que estavam envolvidas no crime. Não importa se é criança, adolescente ou adulto. A vingança familiar não encara suas vítimas, ela quer “justiça”. Cada ser que estava envolvido na morte da Halyna e seus descendentes foram peões da vingança da Haia, confirmando a parte estrutural e sistêmica do poder das deusas vingativas.


Porém, toda vingança causada pelas Erínias possuem um preço: elas se perpetuam. Que, caso tenha segunda temporada, poderemos ver um pouco mais do desenrolar da transmutação de alma de Halyna.


Embora tenhamos focado nas Erínias e em Haia. Desalma possui lindos paralelos mitológicos, como, por exemplo, as Mávkas, espíritos de mulheres que morreram afogadas e vagam na floresta em busca de vingança, que se assemelha muito ao conto mexicano de La Llorona. Porém, estes paralelos são outro momento.



Você pode encontrar desalma no globoplay.


Referências Bibliográficas:

Brandão, Junito. Dicionário Mítico – Etimológico. Editora Vozes. Petrópolis, Rio de Janeiro, 2014.

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