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  • Foto do escritorMar de Afetos

O Instagram, o Mar de Afectos e a Terapeuta.

Atualizado: 27 de jun. de 2021

O processo de criação do Mar de Afectos foi uma delícia. Era uma mistura de frio na barriga com animação em mergulhar na própria história e assumir meu "eu profissional". Era um momento de autodescoberta e de mostrar para os demais quem era a Marcela terapeuta: a Marcela do amar, do brincar, do afeto e da autenticidade.


Foi um grande passo. Para uma pessoa que gosta de estar no próprio casulo, havia sido quase um grito de independência. Da mesma forma, compreendo que foi um movimento intrínseco - extrínseco em que a autodescoberta e a exploração eram mais almejadas do que a necessidade de um resultado. Me sentia protegida e assegurada. Era apenas uma aventura que resultaria útil para meu trabalho.


Então, de repente, necessitei mudar minha vida inteira. Regresso ao Brasil, reiniciar a carreira. Quem aqui ainda se lembraria de mim para fazer indicações? Saí do Rio de Janeiro em 2018 quando nem em nossos piores pesadelos imaginaríamos que estaríamos vivendo esta realidade. A COVID era apenas enredo de filme apocalíptico e as eleições eram um grande combustível polarizador desse país.


Voltar ao Brasil de forma repentina fez com que minha relação com o Mar de Afectos mudasse. O movimento intrínseco - extrínseco se alternou. Com isto, esta entidade se tornou minha porta de transformação e reestruturação. Transformou-se em um trabalho, em algo necessário, em um comércio.


A verdade seja dita que na faculdade de psicologia não ensinam nosso trabalho como um comércio, e não foi muito diferente no mestrado em terapias artísticas e criativas. No entanto, desta vez, com o olhar da maturidade e um pouco da inocência destruída, comecei a compreender que o dinheiro faz parte do processo terapêutico. E, desde então, minha relação com o Mar de Afectos tem sofridos altos e baixos.


Iniciou com o Instagram me apresentando várias contas de marketing para psicologia que ensinam o terapeuta a promover. Eu, muito curiosa, logo mergulhei nelas. Compreendi estar muito teórica e precisava conversar com "minha audiência".


“Que audiência?” me questionava, “a futura, os seus clientes”, respondiam às publicações. Portanto, iniciei a mudança.


“Você precisa aparecer para seu público”, explicavam.


Logo eu, que detesto apresentações de trabalho, que deixo todos meus amigos enfurecidos por apagar as mensagens de whatsapp, que havia excluído meu Instagram pessoal e retornado apenas pelo Mar de Afectos, tendo que “aparecer para meu público”.


Que difícil! Não obstante, enfrentei. Realizei vários Stories[1] em que apaguei a maioria. Para um vídeo que dura no máximo quinze segundos, afirmo que demoro no mínimo, dois minutos para postar (e dois segundos para apagar e fingir que nada aconteceu). Com tempo, prática - e apagando o aplicativo do meu celular cada vez que publico algo -, finalmente estou conseguindo lidar um pouco melhor com esta ferramenta.


O grande X desta rede social é que mexe com diversos aspectos: o medo a exposição, expor seu corpo, sua imagem, as inseguranças, o autojulgamento. A minha relação com meu corpo mudou após começar a aparecer mais e a enxergar o aplicativo como trabalho.

Como se não fosse o suficiente, as contas me informaram que era necessário publicar reels[2] e igtv[3]. Iniciei no reels mostrando minhas artes em um processo de tentativa de exposição. Na mesma época em que comecei a aparecer nos Stories, percebi minha rigidez em mostrar minhas obras. Assim que me indaguei: como eu, uma arteterapeuta, que trabalha constantemente com a forma como seus clientes lidam com seu trabalho, tenho vergonha de mostrar minhas obras? Se não exijo que meus clientes sejam um Rembrandt, porque me anularia desta forma?


Este primeiro reels foi bastante divertido. Em seguida, realizei outro mostrando meu livro. Meu primeiro sucesso algorítmico com a ferramenta. Fiquei surpresa e em pânico. Até que, finalmente, mostrei meu rosto. Paralelamente, comecei a contar contos no IGTV e também criei a série “terceirão”: em que abordo tópicos de forma rápida, normalmente explicando três razões ou benefícios sobre algo.


É um grande trabalho de exposição aonde ainda me sinto muito incomodada, porém, quando vejo que consigo realizar e não apagar, me sinto afortunada. É uma ambivalência. Existe linha tênue entre sair da zona de conforto e se agredir por extrapolar os limites, por isso, é preciso estar atenta.


Como se toda essa mudança não fosse o suficiente, o Instagram passa a me mostrar outras contas de sucesso em psicologia. Inicia-se então um estudo destas por meio da comparativa e noto as diferenças de conteúdo, me pergunto então se estou me equivocando em algo. Certamente possuo muito amor por contos e mitos, porém, será que meu público se interessaria por isso? Como passar da melhor forma? Geralmente posto muito Stories do meu processo criativo. Será que as pessoas entendem a importância ou gostam? Como explicar isso?


A verdade é que o Instagram me faz me sentir burra, como se não soubesse de absolutamente nada. E olha que tenho consciência de que o mundo é muito mais desconhecido do que conhecido. E também não tenho pretensão de saber de tudo. Contudo, um dos conceitos do Instagram é você ser autoridade, e eu não me sinto autoridade em nada. E nem sei se quero ser autoridade em algo. Só quero ter o privilégio de acompanhar pessoas em seu processo, logo, o Instagram me faz sentir uma charlatona.


E como se o aplicativo pudesse me escutar, as contas de marketing continuam a me bombardear com informações para fazer com que minha cabeça criativa, transformadora e borbulhante queira explodir.


“Você precisa de publicações com uma palheta de cor e elementos padronizados, não pode escrever demais, nem de menos, não pode deixar muito espaço em branco, nem poluir a imagem. Lembre-se de ser um bom conteúdo para quem te segue ao mesmo tempo em que fica convidativo para os potenciais seguidores e clientes”, me afirmam com convicção.

Noto então que possuo demasiadas cores e tons, que não possuo elementos repetitivos e que talvez as fontes possam estar um pouco não convidativas para quem chega. Pelo menos, essa parte, é mais fácil de lidar, pois amo meu carnaval e não sinto vontade de mudar.


“Qual é seu nicho?”, continuam.


Ah, o “nicho”, uma palavra tão pequena e que me produz tanta raiva. Já atuei com coletivos de pessoas diagnosticadas com transtornos psicóticos e esquizofrenia, com pessoas em situação de refúgios, imigrantes, indivíduos em situação de vulnerabilidade, autismo, adicções, adultos e crianças, grupo e individual. Já estive em tantas áreas... Tenho a mais absoluta certeza de que “pessoas” é meu nicho. Infelizmente, essa não é uma resposta válida.


"Mitos, contos, processo criativo e grupos terapêuticos são pontos que gosto de abordar.", penso. Infelizmente, segundo essas contas que sabem como captar clientes e “empreender” sua vida laboral, isso também não é um nicho.


Criei o Mar de Afectos como uma forma de exposição que me refletisse e que tocasse as pessoas de alguma forma. Que fosse uma vitrine do meu trabalho. O Instagram era para ser um reflexo do blog. Ao mesmo tempo em que me sinto completamente perdida nesta rede social, consigo ver os resultados de sua aplicação realizada conforme o padrão do qual não me sinto confortável.


O Instagram me faz questionar diversos pontos sobre a minha vida e sobre minha profissão, me faz comparar com os demais, me faz detestar essa sociedade capitalista e me coloca em um lugar de exposição que me assusta. Enquanto isso, o Mar de Afectos me coloca nesse lugar de explorar, de diversão e de risada, me coloca em um lugar do qual me sinto pertencente.


O Instagram e o Mar de Afectos são como duas forças que procuram se unir, pois sabem que podem trazer o melhor para mim. Enquanto eu, fico aproveitando e tentando me encontrar, me perder e me reencontrar neste processo.


É uma loucura muito divertida e da qual me orgulho. Sinto-me plena quando coloco meus pés no chão e compreendo meu lugar, quando não me comparo aos demais e respeito e honro minha abordagem e minha trajetória, quando compreendo que o Mar de Afectos pode ser uma ferramenta de trabalho saudável em que posso me expor e que não preciso ser igual aos demais ou seguir um padrão.


A grande questão é conseguir colocar limites e enxergar o Instagram como uma ferramenta de trabalho, mas não meu trabalho completo. Compreendo a dificuldade deste processo até porque existe um esforço por detrás que só quem cria conteúdo sabe o tempo investido.


Como diria meu pai “você colhe aquilo que você planta”, ao longo da escrita desse texto consegui compreender que a rede social atuaria por este viés, eu plantaria o Mar de Afectos e logo, um dia, ele dará seu fruto. No tempo correto. É só lembrar de não correr contra o tempo, é nadar com ele. Ter paciência e confiar que tudo um dia voltará ao seu lugar.


Porque, afinal, é a compressão de um Instagram do Mar de Afectos, coordenado por mim. É um equilíbrio que finalmente estou começando a enxergar e praticar.

[1] Publicações de quinze segundos que permanecem por 24 horas na plataforma. [2] Vídeos de quinze segundos. [3] Vídeos de até uma hora.

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