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O descontrole é de praxe

Admiro àquelas pessoas que moram sozinhas e chegam do trabalho jogando o sapato para um lado, a bolsa para o outro e se atirado no sofá.


Admiro também quem mora com apenas um animal e após tirar sapato e bolsa, coloca a ração de seu bichano e se joga no sofá.


No meu caso, é um pouco diferente: quando chego em casa geralmente é: coelho correndo entre minhas pernas, gato pulando do teto para me receber, gato batendo em coelho, coelho correndo atrás de gato,  gato em cima de aquário,  peixe tentando expulsar gato, peixe nadando de um lado para o outro quase gritando "oieeee, eu estou aqui!!”, pato grasnando e bicando quem se aproxima...


Às vezes fico atônita olhando para Efigênia roendo o batente da porta enquanto Neide, a peixe, briga com Sebastião que está em cima de seu aquário e sinto um alívio cômico ao mesmo tempo em que me pergunto: “será que deveria buscar ajuda?”


Me sinto como àquele clássico da sessão da tarde dos anos 2000, 12 é demais. Bem naquela primeira cena de um café da manhã que é criança gritando para um lado, correndo por outro, ovo voando por cima da mesa....


E como se já não fôssemos o suficiente, chegou Pedrinho, o hamster. Vítima dos maus tratos humanos de uma grande loja na enchente que assolou o Rio Grande do Sul. Eu reconheço que colocar um pequeno roedor em um ambiente com felinos pode ser loucura. Mas, maluca, sim, irresponsável? Jamais.


Pedrinho foi adotado completamente consciente do perigo que poderia correr nessa casa. Por isso, ficando em um cômodo separado e exclusivo até chegada de seu terrário.


O que jamais imaginaria seria a obsessão e Antônio por ele. Antônio não pode ouvir o barulho da caixa organizadora se abrindo que sai correndo de seu jeito manco, para cheirá-lo e encher de lambidas que me desesperam. A voz na minha cabeça de: “mmmm, esse churu está com gosto diferente”, me assusta.  


Para minha sorte, nem de churu Antônio gosta.


A caixa organizadora está presa com três cordas de bicicletas e dentro de um quarto que fica com a porta fechada.  


Inacessível.


Até que um belo dia saio de casa e quando retorno; a porta do quarto está aberta. Sem desconfiar de nada, continuei meus afazeres. Afinal, havia feito tudo para a segurança de Pedro e era impossível que acontecesse alguma coisa.


No entanto, a prepotência humana logo vai abaixo no caos que só a família multiespécie pode proporcionar: Antônio estava deitado bem pleno, como se aquele lugar fosse seu por direito, dentro da caixa de Pedrinho.


"ANTÔNIO " grito e corro para ver como estava o hamster. Que, por sua vez, dormia o sono dos justos. Claramente com o coração com uma batida mais tranquila que a minha.


Acontece que Antônio apenas quis ficar ali, do lado do seu brinquedo, presa, filhote. Sabe-se lá o que se passa na cabeça desse gato amarelo e branco.


Houve uma época em que me culparia e me matizaria por me sentir insuficiente para proteger Pedro. Hoje em dia, apenas olho para essa cena e agradeço que Antônio seja mais acolhedor que caçador. Enfim, já é esperando na vida momentos de caos. Mas, na família multi multiespécie, o caos é rotina.


Talvez, eu viva tantos descontroles caóticos que esse seja apenas mais uma história. De certo, tenho muita sorte dessa ter um final feliz.


Ao mesmo tempo, esses momentos me remetem que: não importa quantas cordas coloquemos, quantas portas fechamos, jamais podemos parar a natureza do outro.


O descontrole é de praxe na família multiespécie. Ela não tem um dia de paz.


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Prazer, a humana.

Olá, meu nome é Marcela Figueiredo, sou artista, autista, psicóloga e arteterapeuta responsável por uma linda - e enorme - família multiespécie. Seja bem-vinde ao nosso mundo.
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