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  • Foto do escritorMar de Afetos

Histórias transformadoras: parte II

Atualizado: 8 de jun. de 2021

• Exemplo do uso de técnicas narrativas ancestrais na terapia criativa e artística:


Este estudo é baseado nas terapias artísticas criativas em conjunto com as técnicas narrativas ancestrais durante meu trabalho voluntário com pessoas diagnosticadas com esquizofrenia.


Quando entrei para a ONG em janeiro de 2019, percebi a necessidade de estimular a autonomia criativa. As sessões de uma hora aconteciam semanalmente, se renovando a cada trimestre e, a cada início, criávamos juntos uma história que, em comparação com as anteriores, nos permitia encontrar novos objetivos de trabalho: como a estruturação do ego e sexualidade.


A primeira história apresentou desorganização da estrutura textual: aparentava haver duas histórias, na qual a segunda devora a primeira. "Devorar conteúdo" é uma marca constante na esquizofrenia que demonstra a necessidade de fortalecimento da personalidade. Compreendendo esse aspecto, as atividades aconteceram do nível grupal ao individual, entre janeiro e abril de 2019.


Ainda no primeiro trimestre, após a criação da história com o auxílio de dados de contação de histórias, partimos para a produção de obras plásticas bidimensionais, tridimensionais até chegar ao corpo por meio das técnicas teatrais do Teatro da Crueldade, de Antonin Artaud , do Teatro do Oprimido de Augusto Boal e do psicodrama, de Jacob Levi Moreno.


Em maio, voltamos a criar histórias. Desta vez, sem o auxílio dos dados. O resultado foi de uma estrutura textual mais elaborada, confirmando um ego mais fortalecido e de maior autonomia criativa. Assim, de maio a julho, enfatizamos na dramatização e exercícios terapêuticos em grupos, a fim de estimular a socialização com o mundo externo.


Com a chegada do outono europeu, de setembro a dezembro 2019, houve uma mudança na dinâmica do grupo, necessitando uma vez mais o fortalecimento do individual, sendo o movimento: indivíduo - grupo - indivíduo. Nesse ínterim, começaram a surgir temas de "amores que não podiam acontecer".


Em janeiro de 2020, criamos mais uma história em que os temas “devorar”, "cidade" e "plantas" foram revelados. Assim que em janeiro e fevereiro trabalhamos no fortalecimento do ego através de trabalhos artísticos relacionando cores à sentimentos e emoções, chegando por fim a criação corporal dos sentimentos e até a dramatizações.


Percebendo mudanças sensíveis no grupo, um ano depois, em fevereiro de 2020, outro conto foi escrito e os temas da “transmutação das flores” e “romance entre casais que nunca terminam juntos” emergiram furiosamente. Nas produções, surgiram imagens como o tabu da sexualidade, figuras do feminino, árvores, casais e mulher-árvore.


Nesse momento, logo identifiquei que estávamos preparados para adentrar no mito grego de Daphne e Apolo, em que Apolo, flechado por Cupido, se apaixona fervorosamente pela Ninfa Dafne que, desesperada enquanto tentava escapar do deus apaixonado, pediu misericórdia aos deuses e, no ato de bondade, eles a transformaram em um louro. Apolo, entristecido, jurou amor eterno a ele e fez do louro sua árvore.


Portanto, para explorar tal mito, fomos ao parque onde cada integrante do grupo escolheu uma fita de seda colorida baseada no trabalho anterior das cores e percorreu o parque deixando pequenos laços coloridos do que lhe chamavam atenção e tiraram fotos desses objetivos, fortalecendo a relação do mundo interior com o exterior.


A ideia era ter continuado a atividade na semana seguinte em uma visita ao Museu do Prado, na Espanha, onde veríamos a pintura de Apollo perseguindo Dafne, de Theodoor Van Thulden, e então lhes contaria o mito, faríamos uma colagem com as fotos tiradas e, por fim, iríamos ao Parque do Retiro para levar o conto, as produções e explorar no corpo através das técnicas do Teatro da Crueldade. No entanto, a pandemia obrigou-nos a encerrar este processo.


Algumas histórias terminam com um final aberto, mas o terapeuta narrativo ancestral deve sempre acreditar no poder da história e, como nos contos de fadas, nos moldamos de acordo com as manifestações, possuindo as ferramentas necessárias para criar, mudar, transmutar e elaborar.


Saindo de uma dependência criativa para uma maior autonomia na qual, primeiramente, o grupo necessitava de um auxílio externo identificados pelos dados storytellings para criar, e esperavam constantemente que eu lhes dissesse o que fazer. Depois de um ano, o grupo se sentia livre para propor atividades e criar. As técnicas narrativas ancestrais mostraram-se uma excelente ferramenta dentro das terapias artísticas e criativas como fonte de investigação do nosso mundo interno e externo.



 

[1] “Del mismo modo, lo que el hombre experimenta como goce estético del cuento, se aparta mucho de lo que sucede en el alma humana, en las profundidades de lo inconsciente, cuando a ella se une lo que la narración vierte e irradia: simplemente experimenta una necesidad inextinguible de que circule la materia del cuento por sus venas espirituales, del mismo modo que el organismo la tiene en lo que corresponde a las substancias nutritivas”. (Steiner, et al., 1998, p. 11)


Referências bibliográficas:

Campbell, J., 2001. Temas Mitológicos na Arte e na Literatura Criativa. In: S. Kaplan, ed. Mitos, Sonhos e Religiões nas artes, na filosofia e na vida contemporânea.. Rio de Janeiro: Ediouro, pp. 139-176.

Campbell, J., 2014. Los mitos: Su impacto en el mundo actual. 5 ed. Barcelona: Kairós.

Franz, M.-L. V., 1987. The interpretation of fairy tales. 1 ed. Boulder: Shambhala.

Schneider, R. E. F. & Torossian, S. D., 2009. Fairy tales: from their origin to contemporary clinic. Psicologia em Revista, 15(2), pp. 132-148.

Steiner, R., Grahl, U., Von Heydebrand, C. & Lenz, F., 1998. Los cuentos a la luz de la investigación espiritual.. In: R. Steiner, ed. La Sabiduría de los Cuentos de Hadas. Madrid: Rudolf Steneir S.A, pp. 7-37.

Vernant, J.-P., 1999. O Universo, Os Deuses e os Homens. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras.

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