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Histórias transformadoras: as técnicas narrativas ancestrais nas terapias artísticas e criativas.

Atualizado: 6 de jun. de 2021

Os mitos e contos acompanham o ser humano na busca do sentido e da compreensão da sociedade desde o início dos tempos. Caracterizados pela oralidade, enquanto os mitos têm a função de transmitir memória (Vernant, 1999), os contos de fadas refletem as condições da sociedade (Schneider & Torossian, 2009).


A mitologia, por meio de suas quatro funções: mística, cosmológica, sociológica e psicológica / pedagógica, (Campbell, 2001) desempenha um papel indispensável nos significados humanos e coletivos dês de do momento em que percebemos nossa existência até a explicação e organização do mundo.


Devido a tais funções, os mitos se transmutam mais lentamente, enquanto os contos de fadas, por sua vez, são rápidos pelo seu aspecto projetivo e por estarem em contato direto com as respostas dos ouvintes (Franz, 1987, p. 2).


Embora parte da função ritualística do mito tenha se dissolvido resultando em problemas geracionais como depressão, adições, dificuldade de lidar com limites e aceitação da vida adulta (Campbell, 2001, p. 141), através do olhar especializado e atento podemos identificar os mitos em formato simbólico.


O mesmo acontece com os contos de fada que, refletindo a sociedade em que vivemos, aludem por meio do cinema e da literatura o nosso momento de aproximação com a sombra cultural através do desenvolvimento das histórias de vilões, como por exemplo, o filme da Cruella, Malévola e Coringa.


Segundo Campbell (2014, p. 26), é de extrema importância que ciências como a psicologia e a história se unam para refletir o estudo e a finalidade da mitologia em nossos tempos, uma vez que a interpretação literal dos mitos em algumas sociedades ainda é usada como fonte de poder, levando à intolerância e represália.


As técnicas narrativas ancestrais visam compreender a vida psíquica, criativa, emocional e social do indivíduo por meio dos relatos ancestrais que, vinculadas com as terapias artísticas e criativas, nos permite adquirir uma visão global da pessoa.


Refletindo o próprio caráter do estudo da mitologia, para compreender as técnicas narrativas ancestrais é necessário estudá-la em série, observando a jornada e priorizando o processo. Não nos interessa o valor estético, uma vez que o nosso olhar se concentra no simbolismo por trás de cada linha dita, escrita, desenhada e dramatizada.


“Da mesma forma, o que o homem experimenta como o gozo estético da história está muito distante do que acontece na alma humana, nas profundezas do inconsciente, quando se junta ao que a narrativa derrama e irradia: ela simplesmente experimenta uma necessidade inextinguível de que a matéria da história circule em suas veias espirituais, da mesma forma que o organismo a tem no que corresponde às substâncias nutritivas ”. (Steiner, et al., 1998, p. 11)[1]

Enquanto os mitos foram vistos como secundário e como "auxiliador" pela psicologia. As técnicas narrativas ancestrais adotam a mitologia e os contos de fadas como terapia, no sentido em que, por meio da identificação, criação, contagem e escuta dos contos tradicionais, ocorre um aprofundamento do processo terapêutico. A história do cliente, identificada com mitos e contos, alinhada ao processo criativo, é o o fio condutor na exploração e da apropriação de si no percurso à própria autenticidade.


Além de formular o imaginário do ouvinte, a técnica propícia à investigação - e o autoconhecimento - da vida psíquica, emocional e criativa de quem a desfruta. Semelhante a outras metodologias, as narrativas ancestrais são bastante democráticas, concretizando-se em vários aspectos. Como um microcosmo dentro das terapias artísticas e criativas, as técnicas narrativas ancestrais poderiam possuir o viés da gestalt-terapia, analítica, psicanálise, humanística, narrativa, chegando até mesmo às bases filosóficas e antropológicas do imaginário. A universalidade está na visão abrangente do ser humano.


A literatura encontrada costuma ser voltada para quem deseja trabalhar com crianças. No entanto, essas técnicas se aplicam a qualquer coletivo porque nossa espécie é cercada por histórias cheias de simbolismo universal. Quem nunca foi enfeitiçado por uma história contada na mesa do bar? Ou reagiu exageradamente à história de um amigo? No decorrer dessa evidência, compreende-se da existência de um contador de histórias em todo terapeuta narrativo ancestral, uma vez que somos movidos pelo prazeroso interesse em ouvir, criar e contar histórias! Englobando a magia de traçar um paralelo com o mundo do imaginário a partir de narrativas comuns.


As mitologias e os contos de fadas funcionam como um aparato que, correlacionado às terapias artísticas e criativas, se expande. Desta forma, o nosso trabalho está sempre ligado às expressões artísticas, uma vez que para “contar uma história” atuamos como um misto de arqueólogos e antropólogos que visam explorar o universo simbólico de cada um.


 

Continua na próxima semana....


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