top of page
  • Foto do escritorMar de Afetos

Carta de despedida à Ártemis

Estimada deusa, Ártemis


Não existirá em toda Grécia, nem em qualquer centímetro deste mundo, talvez nem no Olimpo, algo mais bonito e sagrado que teu santuário, guardado e protegido nos caminhos da floresta, onde o mistério, a força do oculto e a transformação vivem.


Escrevo-te esta carta sentada em uma bonita pedra, a margem do rio onde me banhei várias vezes durante o ano. Aqui, consigo ouvir o som da água contra as rochas, os cantos dos pássaros, o toque dos cascos dos antílopes ao andar e o delicado barulho das plantas se movendo em virtude do vento, que além de bagunçar meus fios dourados, cantam em meu ouvido a mais bela canção da natureza.


Oh, estimada, Ártemis! Se soubesses o quanto meu coração anseia ficar por mais tempo! Aceitaria o juramento da virgindade eterna, aceitaria seguir-te a qualquer lugar do mundo, aceitaria aprender a correr como um leão atrás de sua presa, aceitaria treinar o dom da caça, viveria na floresta e te cultuaria todas as noites, respeitaria teus animais sagrados e abdicaria do que me espera ao sair de teu santuário; o casamento, ser uma esposa e mãe dedicada. Abdicaria, sem um fio de dúvida em meu coração, minhas obrigações como uma futura mulher civilizada, somente para ficar mais tempo em teu templo.


Olho para trás e vejo a floresta. Afirmo convicta que um ano não foi o suficiente para conhecê-la por inteiro! Ainda há tanto o que ver! Lembro-me de no caminho ao teu esplendido santuário, perguntar a mamãe o que aconteceria quando saísse, e ela me respondeu: “Estarás pronta para casar e ter filhos, apoiar o maravilhoso príncipe que será teu esposo, cuidar de teus filhos, exercer tua função de mulher”.


Não soube o que dizer de volta a mamãe, então, continuamos nossa viagem em silêncio. Quando chegamos perto da floresta, meu coração acelerava de felicidade, parecia um filhote de cachorro querendo brincar! queria sair do lado de minha mãe e correr pelo bosque, subir nas árvores! No entanto, mamãe me segurou pelos ombros e apenas sorri para a sacerdotisa que nos aguardava pacientemente.


Diferente do que descobri ao chegar aqui, nem todas garotas foram iguais a mim que saiu dos braços da mãe e ficou feliz ao caminhar até o templo junto a sacerdotisa, que, por sinal, era linda como a natureza, tinha cabelos castanhos avermelhados que me recordava dos bronzes das armas de papai, seus olhos eram mel, bem claros, como se houvessem sido roubados da mais intensa colmeia, incrivelmente diferente dos meus, azuis. Não obstante, tínhamos em comum o mesmo tom branco de pele parecendo ao leite extraído das vacas.


Ela parecia apenas dois anos mais velha que eu, era jovem, bonita e me contava com empolgação o que faríamos quando chegássemos e, em resposta, eu pulava de felicidade ao seu lado.


Sua roupa não era curta como de uma caçadora, Soberana deusa, porém, lhe aparecia um pouco da batata da perna, o que minha mãe achava imoral, mas eu achava libertador e me perguntava se poderia usar uma igual, ou até mais curta.


Enquanto caminhávamos, ela me explicou que ali ficaria segura e protegida, pois, estaria passando por um momento de transição. Não entendia muito bem o que queria dizer, só fui aprender e entender mais tarde. Ela dizia que minha virgindade estaria protegida em teu santuário, que a senhora, minha deusa, tomaria conta dela e que, no final, estaria apta para exercer meu papel no mundo grego.


Quando me deparei com teu santuário, pensei que os deuses me enviavam alguma alucinação por sonhos. Nunca havia visto tanta beleza! Era escondido, em algum lugar da floresta, protegido do bem e do mal. As colunas eram enormes, que por um momento acreditei que haviam sido construídas por ciclopes, mas logo que entrei no templo, acompanhada da sacerdotisa, qualquer ideia ou teoria sobre a coluna foi esquecida.


O lugar chegava a ser ainda mais belo por dentro. Por fora, havia a mistura das florestas com as colunas, por dentro, parecia que a força externa da natureza havia sido agrupada dentro de um só espaço. Bem no altar, estava a palmeira que representava o local onde nascestes, ao lado haviam dois ursos: um representando a vossa divindade e outro representando teu irmão, o deus Apolo.


Havia tochas, plantas e um enorme campo verde. Lembro-me de ficar tão animada! Quando saímos de lá, choquei-me ao me deparar com várias garotas das mais diversas idades, algumas eram mais novas e outras mais velhas, porém, não muito mais que eu. Elas comiam com a mão e riam muito alto. Suas roupas eram curtas e algumas estavam com o cabelo molhado, como se tivessem acabado de sair de um banho de rio. Ao me verem, ficaram eufóricas e me perguntaram absolutamente tudo. Em pouco tempo, já fazia o que minha mãe me proibira de fazer quando cheguei. Corri, subi nas árvores, gritei, usava roupas curtas! E que facilitavam muito na corrida!

Sentia-me livre! Sentia-me pertencente a um animal da floresta, como uma águia que sente o vento bater contra suas penas ao voar, como um filhote de macaco que sente a barriga cheia de vento ao pular de galho em galho, como uma corsa que sente suas patas relaxarem ao tocar na terra fofa.

Comíamos com a mão, comíamos o que quiséssemos e na hora que quiséssemos, dormíamos de dia e corríamos a noite. Tomávamos banho nuas, sem nenhum pudor, e também corríamos sem roupa! E, antes de dormir, víamos quem tinha mais machucados na perna, pois muitas vezes esbarrávamos em gravetos ou éramos picadas por mosquitos.


E honro em dizer-te, querida deusa, que somente ganhei nessa competição três vezes ao longo de todo o tempo. Perder, nesse sentido, era um sentimento de orgulho de minha parte, sinal de que desviava de todos os obstáculos, corria como um animal selvagem e conhecia muitas partes desse maravilhoso lugar.


Descobrimos algumas cavernas e ao nadar, sempre abria os olhos para aproveitar a vista até debaixo da água. Aproveitei cada segundo que tive e ainda aproveitaria mais se tivesse.


Certa noite, fizemos nosso culto à senhora, oferecemos um sacrifício, depois libações e derrubamos líquido no teu santuário para que nos protegesse enquanto estivéssemos ali e para agradecer por ser tão hospitaleira. Foi em um desses rituais ao longo do tempo, que ouvimos a história de Atalanta. As meninas que estavam prontas para irem embora acharam o conto lindo. Ficaram suspirando! Minha deusa, não entendia porque aquilo estava acontecendo. Como podiam suspirar idiotizadas enquanto eu sentia raiva?! Elas achavam lindo os dois viverem juntos mesmo após transformados em leão, e eu achava justo o que a senhora fizera.


Cada vez que a sacerdotisa se aproximava de mim para dizer que meu corpo denunciava a hora de voltar, eu corria como uma gazela para dentro da floresta e desaparecia por horas, até sentir fome. Ou então, corria para o lago e entrava em uma guerra de água com as outras meninas. De todas as formas, fugia como um bicho assustado.


Antes de vir, uma vez ouvi mamãe chorando a papai. Ela lhe dizia que se preocupava comigo, pois, achava que nenhum bom príncipe aceitaria minha mão. Ele lhe contestava dizendo que era coisa de sua cabeça, que com certeza, conforme crescesse, algum homem ia querer casar-se comigo. Aquilo na época não me apavorou, hoje, posso dizer que deixa meu coração acelerado como o de um cordeiro prestes a ser abatido.


Se pudesse escolher uma benção, deusa, além de querer ter para sempre tua proteção, escolheria correr! Igual Atalanta, no entanto, quando fizesse a última corrida, pediria uma faixa para vendar meus olhos, tecido para tampar meu nariz e assim, não cair na armadilha de olhar a maçã. Ganharia todas e ainda diria: “Como ousas me desafiar, cara de cão?! Não sabe que sou a mais poderosa entre todos os corredores humanos?! Sou protegida de Ártemis, concedida por um dom! Como ousas querer me desafiar, cara de cão?! Guarde teu ímpeto humano e deixe que os deuses te guiem!”

Rio de mim mesma, estimada Ártemis, por imaginar que algum dia poderia fazer isso.

Nos outros rituais, sempre lhe oferecia as melhores joias, os melhores panos, até uma roca na qual se tecia roupas, gostava de pensar que se oferecesse o melhor que tinha, a senhora veria em mim algo especial. Em um dos rituais, nos contaram a história de Ifigênia. Oh, poderosa deusa! Aquilo encheu meu peito de esperança e de alegria. Então, cada dia que passou, me empenhei ainda mais para que me notasse e em cada ritual lhe oferecia cada vez mais e maiores preciosidades.


No meio da minha arctéia, houve o ritual de saída das garotas mais velhas. Era de noite, deveria estar tudo escuro, mas as estrelas iluminavam cada canto do santuário e da floresta. Usávamos um vestido de açafrão da cor creme e curto, usávamos os crocotos e imitávamos ursos! As sacerdotisas, também vestidas de ursos, guiavam o ritual e ficavam perto da palmeira e das estátuas representantes de vossa divindade e seu irmão.


Dançamos e fizemos oferendas. As garotas que iam sair, ofereceram o pano da menarca, e depois, corriam contra a sua escultura e a escultura de Apolo, carregando tochas, algumas carregavam coelhos e outras pombas, como se fugissem de vós. Perguntava-me porque não corriam em direção aos deuses! Elas corriam contra, como um cerdo fugindo do ataque de um leão. Nós assistíamos e dançávamos, enquanto elas corriam.


No dia que foram embora, elas pareciam felizes e animadas. E eu ainda não entendia e pedia ainda mais tua proteção. Pedi tanto, deusa, que na noite do meu ritual de despida, oh, poderosa Ártemis, me ajoelho para conseguir teu perdão! Deveria ter feito como as outras meninas e corrido contra a palmeira. No entanto, corri em direção a vós. Foi um ímpeto! Porém, as sacerdotisas me guiaram no momento e me pediram para que corresse com as outras garotas. Entendi meu erro, soberana, e mais uma vez, peço perdão por meus atos.


Agora chegou meu momento, estimada deusa, me chamam, minha família chegou. Estou feliz em vê-los depois de um ano. No entanto, sinto-me como um animal arrancado de sua mãe, sinto-me como um filhote de pássaro que vai voar pela primeira vez e cai do ninho.


Oh, deusa da caça, protetora das crianças! Entendo do seu outro lado, mas veja em mim o mesmo que viu em Ifigênia, sirvo-me em teu sacrifício! Acolha-me e me leve para ser tua sacerdotisa, juro fazer tudo que pedires! Mas não me permita ser uma mulher, não me permita casar e ter filhos, oh, deusa, sinto que não nasci para tal façanha! Sinto que não estou pronta! Rezo para que todas minhas oferendas tenham lhe agradado, que todas minhas ações tenham te satisfeito.


Ifigênia foi salva no momento de seu sacrifício. Ainda tenho como acreditar que também serei. Oh, deusa, aceito com mais de bom grado o que quer que seja que tenhas reservado para mim, somente não me afastes. Se me casar, farei de bom grado o que as Moiras me reservaram, porém, estimada Ártemis, se me salvas, serei tua seguidora mais fiel.


Esta é minha carta de despedida, só espero que não seja a carta de despedida à Ártemis.


Agradeço pelo tempo que estive aqui e esta é minha última tentativa.


Como o último suspiro de Ifigênia, como o último pensamento.


Mas essa é minha carta.


Com toda devoção,


Hersíla.

3 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page