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  • Foto do escritorMar de Afetos

ARCTÉIA: O RITUAL DE PASSAGEM NA GRÉCIA ANTIGA.

Este post é a parte teórica por trás do conto “Carta de despedida à Ártemis". O intuito é combinar a teoria com a criatividade para abordar um tema tão importante, subjetivo, impreciso e complexo em nossa sociedade: o ritual de passagem.


Campbell (1970) descrevia as quatros funções da mitologia: cosmológica, sociológica, mística e psicológica. Nestes enquadres, os ritos de passagens atuariam como forma de tomada de consciência do seu papel na sociedade, de outro nível de consciência humana e também as boas-vindas a uma nova etapa da vida, respectivamente.

Por meio da função cosmológica e sociológica, os mitos organizavam as ordens sociais vigentes: as mudanças das estações, as épocas de transcenderem a moral e, também, a época a criança se torna "indivíduo".

Embora atualmente na cultura ocidental este tipo ritualização tenha estado cada vez mais indefinida, “Carta de despedida à Ártemis” contará a história de uma adolescente que estaria terminando o seu rito de passagem na Grécia Antiga.

Ártemis é a deusa responsável pelo término da infância e início da idade adulta, responsável por tornar a garota “selvagem” na mulher integrada ao corpo social grego. Ártemis é irmã de Apolo, filha de Zeus e Leto. Conhecida como a Caçadora, a Corredora dos bosques, a Selvagem, a Sagitária. Representando a alteridade, é também a Jovem Donzela, a eterna virgem que após um dia de caça, coordena o coro de adolescentes no Olimpo que futuramente se tornarão suas companheiras: a Ninfas.


De acordo com Vernant (1985), muitos gregos a conheciam como Xén­­e - deusa estrangeira - cujo povo havia acolhido e modificado de acordo com sua cultura. De todos os modos, Ártemis ainda representa a deusa selvagem e principalmente da caça. Ela habita nos bosques, nas fronteiras, no limite entre o selvagem e o cultivado.

O ato da caça representa o limiar entre o mundo selvagem e o mundo civilizado, importantíssimo na educação do jovem e da coletividade grega. Os deuses gregos eram ambivalentes: irradia e kóre, caçadora e protetora dos animais, deusa selvagem, Ártemis não representa a selvageria pois existe responsabilidade na caça, e a deusa é a responsável por anunciar a barbárie e culpar os infratores.

Ártemis também é Curótrofa. Segundo Vernant (1985):

Ártemis é a Curótrofa por excelência. Ela cuida de todos os rebentos, dos animais e dos humanos, sejam machos ou fêmeas. Sua função é nutri-los, fazê-los crescer e amadurecer até que se tornem plenamente adultos” (Vernant, p. 21).

Ao mesmo tempo que a deusa caça, mata e representa o lado selvagem, ela também é protetora dos animais, das crianças e dos adolescentes, acompanha os jovens até a sua fase adulta, concedendo-lhes rituais de passagens. Fazendo com que Ártemis proteja os jovens e ao mesmo tempo os assassine, conduzindo-lhes a serem cidadãos gregos e gregas.

Mesmo rejeitando os contatos amorosos e sendo uma deusa virgem, Ártemis também é a deusa do parto. Ganhou o título após ser a parteira de seu próprio irmão gêmeo. O ato de dar à luz simboliza miticamente a longa maturação das mulheres e a Caçadora não apenas conduz esse momento, como também cuida do desenvolvimento do recém-nascido. Na guerra, é presente orientando e salvando, convocada quando algum conflito coloca os guerreiros em risco de sobrevivência ou quando ocorre o nível de brutalidade se excede.


Os rituais de passagens exercidos pelas meninas gregas, arctéia, será demonstrado ao longo do conto. Esse ritual, diferentemente do coureion, ritual dos rapazes, não possui uma função pública e política, no entanto, prepara essas garotas para uma função social importante na Grécia Antiga, a maternidade.

Embora a arctéia seja estudada majoritariamente através das pinturas de vasos, arqueólogos também encontraram oferendas típicas femininas perto do templo de Ártemis, como: joias, espelhos, instrumentos de tecelagem e panos da menarca.


No templo da deusa era onde ocorria o ritual. Para isso, as meninas usavam um vestido de cor açafrão, crocotos - vestimentas de ursos - e imitavam o animal. Também realizavam danças, sacrifícios e libações. As garotas viviam o lado selvagem, dormiam de dia e ficavam acordadas a noite, podiam correr nuas ou com roupas curtas, viviam a liberdade que não seria possível quando saíssem dali prontas para o casamento.


A época da arctéia era muito importante para a proteção e cuidado da virgindade das meninas assistidas por Ártemis, que, naquele século, tinha uma grande representatividade, pois só as mulheres virgens eram aptas a casar.


Alguns estudiosos afirmam que o rito acontecia entre os cinco e nove anos e que as crianças passavam apenas um ano no santuário de Ártemis. Os vasos não informam as idades. Não obstante, é possível ver pelos desenhos que o desenvolvimento biológico distingue entre que algumas possuíam seios e outras não. As que entravam mais velhas não ficavam muito tempo depois da menarca.


Florezano (2000), teoriza similar em relação a idade de início da arctéia, porém, afirma que terminava na primeira menstruação, podendo estar então por mais de um ano. A arctéia era o princípio do período de transição, depois era de amadurecimento e, posteriormente, estariam prontas para casarem e terem seus filhos.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1970, Campbell, J. Mitos, sonhos e religião.

2000, Florezino, M.B, Nascer, Viver e Morrer na Grécia Antiga.

1985, Vernant, J. P, a Morte dos Olhos.

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